Já zapeou por algumas rádios populares por aí e se deparou com o amor aflorado escancaradamente, descadadamente, lavadamente e outros mentes que adjetivam este departamento musical?
Faça isso!
Teste, absorva (mesmo que doa) e reflita.
Todos já passaram por dias de rimas fáceis, confortos rápidos e instantâneos. Em um destes raros períodos escrevi uma música simples, direta e que se encaixa em qualquer ritmos destes. Sol junto com dia, nada mais cafona e sem nenhuma dificuldade que isso, segue esta canção em um período de reflexão sobre as rádios populares:
Soledia
Nasceu o dia e eu ainda não acordei
Lá fora o dia mostra tudo que sonhei
A casa vazia, a tarde tranqüila, a noite e eu aqui.
O quadro me inspira, a Lua me guia, e o Sol a vir.
Só peço a você que me mostre o dia, que me dê alegria.
Que me faça esquecer, toda essa agonia, pelo resto do dia, sem você.
O tempo para, todo meu viver.
E o Sol insiste em nascer.
Então me diga o que a gente fez?
O dia está indo embora mais uma vez
Só peço a você que me mostre o dia, que me dê alegria.
Que me faça esquecer, toda essa agonia, pelo resto do dia.
Com você eu posso ser mais feliz, com você meu dia pode ser mais feliz.
Sol e Lua, para o tempo, Lua e chuva, leva o vento, quero ser o teu Sol.
Lua e Sol, apaga o medo, todo medo, vai com o vento, quero ser o teu Sol.
O dia vai indo embora mais uma vez.
É, nem tudo são flores e culturas, algumas são simples sabedoria.
Hoje é um daqueles dias em que a música tomou conta do meu dia, ou na cabeça assobiando estas canções de pouco conteúdo ou no headphone que trilhava ao meio de planilhas de balanços e atualizações de uma área de Comunicação.
Brasil, este foi o local aonde a arte por meio de notas ecoava pela tecnologia frutada da maçã do doutor Jobs. Citarei algumas viagens musicais nestas últimas 24 horas.
O síndico Maia que usava o imperativo para lermos o livro Universo em Desencanto, que descrevia o Rio de ponta a ponta, ou que atacava os diabéticos com seu terrível Chocolate. Teve o cara que é do Ben, que entre violõezinhos tortos e vocalizações desafinamente afinadas, me mostrou que o homem que matou o homem mau era mau também. Este que salvava Jorge e deixava o menino brincar.
Palavras rasgadas de Lira enfeitaram poeticamente alguns bons minutos, o sotaque de Arco Verde, a poesia de Cabral, a guerra entre a Pedra e a Bala, ou até mesmo a covardia da Matadeira. Sem tomar um avião e sim um pequeno bonde, Recife tocou em minha lembrança.
Science, este sim, sabia que a música tem que mudar, porque a música tem que mudar, só simplesmente porque a música tem que mudar. Transitei pela Praiera, pela Cidade, por rios, pontes e Overdrives. Surgiram alguns Contemporâneos, com a orquestra que grita na Ladeira, que conhece o Canto da Sereia e que quer saber do mar, bem e do dia que ainda vai chegar.
Agora sim, não de aeroporto para aeroporto e sim de zepelim me transporto para o cinza de São Paulo juntamente com o sotaque carioca. Essa tecnologia que nos dá o direito de misturar em uma só lista estas duas grandes capitais, acionaram meu repertório de rimas que passaram pela street poesia de Emicida, o sarcasmo de De leve e seu Quinto Andar, e a tradição do rei do Canão e do Brooklin.
Traduções para cada instante, trilha sonora, conforto, revolta ou conformidade. Para todos os credos, costumes e sentimentos existe uma letra e uma melodia. Procure e desperte sua essência.
Meu passado virou o futuro Meu futuro em cima do muro Meu passado que era uma pena Meu futuro agora, condena Meu futuro que é a verdade Meu passado oculta a realidade
Minha vida o futuro o passado, o presente, que agora é pecado.
Passado virou o meu muro Em cima, o passado futuro Futuro era pena e condena O passado condena, que pena Futuro passado é realidade O presente oculto, agora é verdade
Minha vida, o futuro, o passado O presente que agora é pecado Pecado agora presente Minha vida, o futuro, pretérito vago.
Do nome Natália, do diminutivo no apelido, do sorriso real, do aumentativo no significado "Mulher", da simplicidade da palavra "Menina", do coração que ultrapassa os limites concretos, da voz que acalma, do olho que enxerga a lucidez e a falta dela quando convém. Da beleza que se confunde com a personalidade, das curvas perfeitas como Niemeyer, da boca, do pêlo, do peito, como Caetano, dos movimentos comunicáveis como Chaplin, do amor que come meu nome, minha identidade, meu retrato e tira meu medo da morte, como João. Do entender de sonetos, cantigas, poesias, dores e alegrias de Vinícius. Minha chapação, meu domingão de Sol, o que meu médico receitou, como Zero Quatro. Risofloras, Magrelinhas, Bárbaras, passam longe da menina que é "Todas elas num só ser", como disseram Rennó e Lenine. Não consigo viver sem. Almoços, jantares, líquidos, equivalem ao mesmo patamar de importância. N-A-T-Á-L-I-A... ...A explicação dos efeitos...
Allan Jofre De cada esquina, lugar tão perto Pagando limpa de peito aberto Buscando pipa no azul do teto E eu ainda no avesso do inverso
Ê mundo louco...
Perdendo luta na Lua perdida Vendendo a alma e a carne sangria Escorrendo calo no final do dia Mentindo imagem, escondendo gíria
Ê mundo louco...
No alívio da sexta, na corrida do bar No poder do ilícito ou no banho de mar No carinho da nega, uma dupla singular Descansando o espírito quase a pé sem notar
Ê mundo louco...
Que desse mundo eu só levo a saudade Que desse mundo só levo a amizade Que desse mundo só levo a vontade Meu amor...Que mundo louco...
Após um daqueles almoços que deixam o corpo mole, me jogo no sofá, ligo a TV, para celebrar meu ritual dominical. Zapeando de canal a canal, procuro algo que não restrinja meu tédio a Faustão e Gugu.
Deparo-me com um daqueles desenhos americanos onde a gritaria histérica e o humor dentro de armas que explodem nas mãos de vilões, são à base do riso infantil.Dois canais adiante vejo uma animação de um palhaço e uma princesa.
O palhaço sempre com o olhar triste, uma característica marcante desse objeto do riso, e um amor não correspondido pela filha do rei de sua corte. Aquilo me fez pensar no abismo que existe entre os dois, tanto no quesito financeiro como no quesito do poder.
Mais uma passada de canais e paro na TV Senado e me esbaldo com a saturação de promessas, infelizmente afundei meu domingo.
Não que a política só me cause o sentimento de ódio e decepção, mas há tempos que estou desacreditando no país. Meus heróis ou foram mortos por aqueles que gritam mascarados em cima do palanque, ou se corromperam entre dólares na cueca e “mensalões”.
Meu domingo passa como essa decepção passa, mas a esperança no palhaço, digo, no povo, ainda é grande, mesmo que a princesa, digo, o poder, seja egoísta. E mais uma vez meus ideais utópicos fecham meu fim-de-semana construindo uma ponte para ligar a força do palhaço à injustiça da princesa cega.
Do grito do ronco da cuíca até o tiro de misericórdia, das escadas da Penha até a saída de emergência. João Bosco mostra nessa sua apresentação sucessos como “Papel Machê”, “Linha de Passe”, “Jade” e “O bêbado e a equilibrista”. Com participações especiais de Djavan, Hamilton de Holanda, Yamandú Costa e Guinga, o violonista e compositor mostra todo seu virtuosismo no instrumento, suas vocalizações marcantes e toda riqueza da brasilidade nas suas letras, sempre com parcerias primordiais.
João Bosco, que já gravou um álbum ao vivo só voz e violão e que ficou conhecido como a Centésima Apresentação, sempre se destaca no palco pela energia, não só pelo “feeling” no instrumento que o acompanha, mas sim, pela força na voz, e “brincadeiras” com as vogais que lhe são peculiares.
O “set list” do show é destacado por parcerias do músico com Aldir Blanc, grande músico e psiquiatra que ficou famoso pela sua parceria com João nos anos 70 graças à cantora Elis Regina, e com Wally Salomão, grande escritor e produtor musical. Uma das crias de Wally foi Cássia Eller. A participação do violonista Guinga no DVD resgatou a parceria de João Bosco com Blanc, eles haviam passado anos sem compor juntos, e com a ligação de ambos com Guinga a parceria retornou.
Na música “Linha de Passe”, encontramos dois músicos de alta qualidade, virtuosismo e brasilidade no instrumento, Ney Conceição no contrabaixo de seis cordas mostra sua “arte autodidata”, o baixista sola nos graves com segurança e técnica apurada. Hamilton de Holanda também participa da faixa, um duelo de bandolim, grave do baixo e violão trazem o “êxtase” da música. Hamilton é da nova safra de músicos cobiçados por grandes nomes da MPB, gravou um cd de samba com Zélia Duncan. A banda em uma sincronia perfeita, com o seu maestro no violão, dá a base para os solos “metralhantes” de Hamilton no bandolim e Ney no baixo.
Yamandú Costa, músico novato, mas de muita experiência e reconhecimento, participa na faixa “Benzetacil”. Yamandú com seus solos sujos e de uma velocidade sem igual, é um ídolo de João Bosco, aliás, o violonista é admirado também por Toquinho. Hamilton de Holanda fez uma série de shows com Yamandú, a preocupação dos dois era no atropelamento das notas, mas as apresentações foram um sucesso, souberam dividir bem o bombardeio de sons exalados pelos seus instrumentos.
Assistindo a apresentação conseguimos ver o passado e o futuro da música brasileira, deveríamos dar mais valor ao que há dentro de nosso país, elogiamos guitarristas técnicos, mas desconhecemos os nomes do nosso virtuosismo seja ele em qualquer instrumento.
O espetáculo inicia seu desfecho com “Corsário”, a participação de Djavan harmoniza com a letra poética da canção, a voz suave e ao mesmo tempo energética do cantor faz com que a faixa se torne um dos altos do show. Na seqüência a canção mais famosa do repertório “O Bêbado e a equilibrista”, que ficou mortalizada na voz de Elis Regina. A música carrega um valor histórico pesado, já que no tempo da ditadura o som trazia uma indignação e uma crítica ao poder militar e uma valorização do povo brasileiro.
Após “Quando O Amor Acontece”, parceria de João com Abel Silva, compositor e escritor brasileiro. O músico fecha a apresentação com “Papel Machê”. Um grande desfecho para essa grande mostra artística, deste personagem da música brasileira que é criticado por muitos, pois o seu método de cantar é diferenciado, mas que foi contemplado com muitos aplausos pelos que admiram o violão bem tocado e um cantar fora de padrão. Sem dúvida, gostando ou não, “Obrigado Gente!” é uma demonstração da tradicional e da atual música brasileira, clássicos na mão de virtuosistas jovens quebram um possível debate sobre a qualidade do futuro da nossa arte.